terça-feira, maio 10, 2005

Para a Maria

A distância de casa aumenta à medida que o passo se afasta da porta, que o peito bate mais calmamente, que a respiração se torna mais profunda.

Vim, vou. Vim, vou. Vim, vou. As ondas contra o penhasco, o vento que quase o atira para o mar numa rajada, as horas sombrias num arrastar difuso. As ondas. O movimento perpétuo. Sentir a maresia (ou as suas lágrimas?). Sentir que está vivo. Que finalmente chora.

Sorri. Dentro dele o desassossego, o medo, a vontade de eternizar este momento. A vontade de se eternizar neste momento. Receia este céu, azul, cinzento, opaco, eléctrico.

A atitude brechtiana de se distanciar da acção leva-o para longe, cria uma brecha entre o que ele é e o que ele age. Longe. Sente-se pesado e leve. Sente-se tão ele. A comiseração fá-lo sentir-se orgulhoso de si próprio. Esquece-se que já existiu para poder existir outra vez.

Inebriar-se com o que é, com cada expiração, cada inspiração, cada passagem.

Ter estes instantes dentro de si, pedaços de morte, fragmentos de vida, a sua decomposição em partes que reunidas num todo parecem não ter sentido.

Voltar para casa.

Cristina