sábado, novembro 27, 2004

Universidade Mágica de Vale dos Cogumelos

Espreguiçaram-se os duendes, bocejaram as fadas, resmungaram com sono os aprendizes de feiticeiro.
"Toca a acordar!", gritava o Mago- reitor, batendo palmas com as suas mãos enrugadas. "As papas de algas estão a ser servidas no refeitório!"
O Sol nascia entre carvalhos ocos e eucaliptos, mas os seus ténues raios não ultrapassavam os braços das árvores, por isso todos os alunos saíam dos troncos por entre a escuridão, respirando o ar pesado, rico em orvalho e em poeira de estrelas.
As fadas estavam aborrecidas "Oh pá, é assim" disse a Fada Paula Coelho, "eu sou uma pessoa que tem a sua dignidade, que trabalha, e ontem, pá, foi visita de estudo ao Baile da Cinderela, pá! Acho uma falta de respeito termos que acordar assim tão cedo!"
A Fada Gaby estava mais preocupada com o seu aspecto : "Ó senhor reitor, não dá para ir daqui a cinco minutos para o refeitório em vez de agora? Este cabelo acordou do avesso, queria fazer um brushing, e como não dormi nada, estou com umas olheiras horríveis, parece que levei com dois muros na cara, ia pôr concealer que sempre disfarçava alguma coisa!"
O Mago-reitor acenou negativamente com a cabeça. As fadas nem ripostaram. Cabisbaixas, sentaram-se na mesa de Fadas do 3º ano e começaram a levar colheres de papa à boca.
Os duendes estavam mais despertos e cuspiram saliva mágica para as suas malgas de papa, sobre as quais os aprendizes de feiticeiro disseram as palavras mágicas.
"Riziguin Solidifican Alguispapis!"
E as papas tornaram-se massas gelatinosas e viscosas e caseosas e rugosas e osas e osas e osas, que os duendes se apressaram a jogar para as paredes e para as roupas das fadas mais vaidosas.
"Estúpidos!"- gritaram em coro as fadas.
Mas o Duende O' Shea já não as ouvia. Naquele momento, no refeitório, entrava a Fada Jonie, a quem ele abanou as orelhas (o equivalente, nos humanos, a um piscar de olhos).
A Fada Jonie reagiu bem: bateu levemente as asinhas, difundindo pó mágico à sua volta (o equivalente, nas humanas, a mandar um beijinho pelo ar). O pó condensou-se à volta do Duende O'Shea , que ficou cheio de partículas platinadas na cabeça e nos ombros. Enquanto os outros duendes gozavam em grande alarido, as fadas ficaram a murmurar entre elas e a olhar pelo canto do olho.
O Mago-reitor conseguiu sentir o aroma da canela com um leve toque a amêndoa: um claro sinal, como indicam todos os bons compêndios de Aromatologia Mágica, de séria inveja.
Cristina