domingo, novembro 28, 2004

Desconstrução

Desconstruí palavras, citações, versos, frases batidas, provérbios.

Com os dedos separei sílabas e letras, inutilizo as cordas vocais para soletrar vogais abertas, o nariz para os sons nasalados, o palato para algumas consoantes. Cantei ditongos e suspirei ésses e xis e zês.

O vento vvvvuuu, o telefone tilili, o pintainho pipipiu, os estalidos de um chicote stlat stlat, as ondas ommspashonnspash, as teclas tec tec tec , o crepitar da lenha sob o fogo crep cric croc cric. Altero as aliterações, vagueio nas onomatopeias.

Reuni as letras as sílabas as palavras, reconstruí frases, sempre ditas, jamais ditas, nunca pensadas. Escrevi nas páginas em branco da minha vida, nas páginas preenchidas também, por cima de parágrafos, de diálogos e de pensamentos. Vi o meu reflexo na última página branca, eu ali, desconstruída, despida, descrita. Escrevi neste último espaço do caderno outrora em branco e esqueci-me dos olhos que me olharam naquele reflexo, ignorei as linhas de expressão do rosto que me fixava.

À minha volta, um calor cómodo, húmido, uterino, uma luz brilhante sem Sol ou nuvens. Adormeço.
Cristina