terça-feira, novembro 30, 2004

No dia 2 de Abril de 2002 um amigo escreveu-me um postal, cujo conteúdo vou revelar aqui hoje:
"Quem compra Sapatilhas Gola:
* Não é bom da Tola
* Nunca foi à escola
* Tem nódoas na camisola
* É um estarola
* Não sabe jogar à bola
* Boicota a Coca-Cola
* Come sopa de Sola
* Não conhece a Equação da Mola
* Tatua Nike na carola
* Saiu-me um mariola"
Espero que ele não se sinta ofendido por esta invasão de propriedade.
1abraço para o meu amigo N.R., que provavelmente nunca lerá isto.
maria

Podem por favor perder o vosso tempo a ler isto?

Ainda não é hoje que vos vou falar da minha loucura.
Hoje vim-vos mostrar uma marca de sapatilhas: Gola.
Cliquem no nome para verem o que a marca nos reserva. Gosto do ar 70s ou algures por aí que elas têm mantido ao longo do tempo.Calçamo-las e sentimo-nos viajar nas décadas até uma saturday night qualquer, as cores vibrantes, a bola de espelhos, o boogie fever...

Sim, porque eu não gosto das sapatilhas pelo objecto, o que é que julgam?, eu gosto de sapatilhas se elas tiverem história, interesse artístico! Agora eu, materialista, consumista...Não! Interessada em arte, é o que é!

A propósito, o exemplar de Gola que eu tenho em casa é este: Chase cor fúcsia/branco.

Desculpem lá, mas só uma louca dedicaria o seu tempo a fazer um post com links e tudo sobre uma marca de sapatilhas.
Cristina

segunda-feira, novembro 29, 2004

Louca

Cada vez mais me convenço de que a minha mente deveria ser alvo de um estudo psiquiátrico cuidado. Por outras palavras, e deixando-se de merdas, eu acho que sou louca. Mas não o seremos todos à nossa maneira? De qualquer maneira alguns são mais normais e é por comparação com eles que me considero... Diferente! Enquanto não tiver comportamentos desviantes, alucinações ou tendências suicidas, acho que a vida pode continuar. Mas se eu algum dia vos espetar com um estalo na cara ou vos falar de uma coisa totalmente estapafúrdia, não se admirem. Posso me tornar perigosa. Depois não digam que eu não avisei.
Cristina

P.S. Qualquer dia explico-vos melhor isto tudo. Hoje não.


domingo, novembro 28, 2004

Dar Atchins!

Adoro dar atchins, parece que a cabeça explode e que toda a merda que tenho cá dentro vai contaminar o mundo inteiro e que vamos todos ficar doidos varridos. MUAHAHAHA
Mas o que eu mais gosto é de tentar manter os olhos abertos para ver se consigo deitá-los cá para fora... como o calvin... puto esperto

vitória ou não

Desconstrução

Desconstruí palavras, citações, versos, frases batidas, provérbios.

Com os dedos separei sílabas e letras, inutilizo as cordas vocais para soletrar vogais abertas, o nariz para os sons nasalados, o palato para algumas consoantes. Cantei ditongos e suspirei ésses e xis e zês.

O vento vvvvuuu, o telefone tilili, o pintainho pipipiu, os estalidos de um chicote stlat stlat, as ondas ommspashonnspash, as teclas tec tec tec , o crepitar da lenha sob o fogo crep cric croc cric. Altero as aliterações, vagueio nas onomatopeias.

Reuni as letras as sílabas as palavras, reconstruí frases, sempre ditas, jamais ditas, nunca pensadas. Escrevi nas páginas em branco da minha vida, nas páginas preenchidas também, por cima de parágrafos, de diálogos e de pensamentos. Vi o meu reflexo na última página branca, eu ali, desconstruída, despida, descrita. Escrevi neste último espaço do caderno outrora em branco e esqueci-me dos olhos que me olharam naquele reflexo, ignorei as linhas de expressão do rosto que me fixava.

À minha volta, um calor cómodo, húmido, uterino, uma luz brilhante sem Sol ou nuvens. Adormeço.
Cristina

sábado, novembro 27, 2004

Estás a ver a Rua da 2ª Década? Não tem nada a ver! (Vontades de aniversário)

Pois não tem! Acabei de entrar na terceira década... Tenho 20 anos. Queria ter vindo escrever sobre isto mais cedo (no dia de anos teria sido giro), mas honestamente não há nada a dizer. Como há para aí dez anos toda a gente pergunta "Então, como é ter x anos?", sendo x a idade que celebro nesse ano, há muito que me habituei a dizer "Bom, é igual a ter x-1 anos", sendo x-1, claro, a idade que teria feito no ano anterior.
Ora, isso faz-me pensar. Se ter a idade que tenho é sempre igual a ter a anterior e há dez anos que isto é assim, será que eu ainda não mudei???

Sinto-me grande. Cheia de vontade de viver. De morar alguns meses na Europa- pelo menos a candidatura para Erasmus começa a ser uma realidade. De ser uma óptima médica, cheia de conhecimentos e de cuidado com o doente. De sair, beber e dançar ao som da música do Incógnito durante a noite inteira. De conversar com a Vitória. De ler mais e melhor. De escrever mais e melhor. De saber dizer não ao que não quero. De ir à procura daquilo que acho que mereço. De ouvir música até que os ouvidos me doam. De conhecer mais países, mais teatro, mais museus, mais músicas. De não desperdiçar pessoas, acordes, gargalhadas, raios de Sol, estados de espírito. De não desperdiçar nada. De reciclar: companhias, papéis, sentimentos, ocupações, vidros, hábitos. De reciclar tudo. De ler poesia. De não ter a prepotência que sei tudo sobre tudo. De aprender a ouvir opiniões totalmente diferentes, um pouco diferentes, mais ou menos idênticas ou totalmente iguais à minha. De não julgar as pessoas à primeira. De encontrar satisfação. De viver insatisfeita.
Cristina

Universidade Mágica de Vale dos Cogumelos

Espreguiçaram-se os duendes, bocejaram as fadas, resmungaram com sono os aprendizes de feiticeiro.
"Toca a acordar!", gritava o Mago- reitor, batendo palmas com as suas mãos enrugadas. "As papas de algas estão a ser servidas no refeitório!"
O Sol nascia entre carvalhos ocos e eucaliptos, mas os seus ténues raios não ultrapassavam os braços das árvores, por isso todos os alunos saíam dos troncos por entre a escuridão, respirando o ar pesado, rico em orvalho e em poeira de estrelas.
As fadas estavam aborrecidas "Oh pá, é assim" disse a Fada Paula Coelho, "eu sou uma pessoa que tem a sua dignidade, que trabalha, e ontem, pá, foi visita de estudo ao Baile da Cinderela, pá! Acho uma falta de respeito termos que acordar assim tão cedo!"
A Fada Gaby estava mais preocupada com o seu aspecto : "Ó senhor reitor, não dá para ir daqui a cinco minutos para o refeitório em vez de agora? Este cabelo acordou do avesso, queria fazer um brushing, e como não dormi nada, estou com umas olheiras horríveis, parece que levei com dois muros na cara, ia pôr concealer que sempre disfarçava alguma coisa!"
O Mago-reitor acenou negativamente com a cabeça. As fadas nem ripostaram. Cabisbaixas, sentaram-se na mesa de Fadas do 3º ano e começaram a levar colheres de papa à boca.
Os duendes estavam mais despertos e cuspiram saliva mágica para as suas malgas de papa, sobre as quais os aprendizes de feiticeiro disseram as palavras mágicas.
"Riziguin Solidifican Alguispapis!"
E as papas tornaram-se massas gelatinosas e viscosas e caseosas e rugosas e osas e osas e osas, que os duendes se apressaram a jogar para as paredes e para as roupas das fadas mais vaidosas.
"Estúpidos!"- gritaram em coro as fadas.
Mas o Duende O' Shea já não as ouvia. Naquele momento, no refeitório, entrava a Fada Jonie, a quem ele abanou as orelhas (o equivalente, nos humanos, a um piscar de olhos).
A Fada Jonie reagiu bem: bateu levemente as asinhas, difundindo pó mágico à sua volta (o equivalente, nas humanas, a mandar um beijinho pelo ar). O pó condensou-se à volta do Duende O'Shea , que ficou cheio de partículas platinadas na cabeça e nos ombros. Enquanto os outros duendes gozavam em grande alarido, as fadas ficaram a murmurar entre elas e a olhar pelo canto do olho.
O Mago-reitor conseguiu sentir o aroma da canela com um leve toque a amêndoa: um claro sinal, como indicam todos os bons compêndios de Aromatologia Mágica, de séria inveja.
Cristina

sexta-feira, novembro 26, 2004

Crime?

Sou um analfabeto incompleto.
No sossego do arvoredo, eu mato num só acto.
Os canos são desumanos.
Perfeitamente demente. Socialmente corrupto.
Um sorriso de esperança. A menina dança?
Sinto uma revolta Por quem não volta.
Frases soltas. Mentes revoltas.
Alguém há-de ver, eu sei que pode doer.
A loucura perdura.
maria

quarta-feira, novembro 24, 2004

blog

Tenho pena de não ter frequentado muito este espaço ultimamente. Problemas no computador, entre outros, têm-me impedido.
Sendo eu Maria (e nunca neguei ser uma maria vai com todos) pode-se considerar normal estas fugas. Espero ser mais assiduo.
Hoje venho sugerir um blog: http://choosecrime.blogspot.com
Felicidades
maria

domingo, novembro 14, 2004

Sei que partiste e avisaste (ou os olhos cor de lagoa)

Sei que partiste e avisaste. Ao contrário das outras histórias de amor, dizias: “Eu não sou perfeita.” Não sabias que a perfeição reside em ti, nos teus gestos, nos teus olhos cor de lagoa. Olhavas-me nos olhos e ameaçavas: “Qualquer dia vou-me embora.” Não aguentavas esta hipocrisia de país, o desespero das avós reformadas, das mães em part-time, dos políticos sem ideias, dos artistas estagnados. Achavas que ias encontrar um mundo melhor. Eu ia vivendo assim, ouvia-te falar sem parar das máfias, dos lobbies, ia acenando que sim a tudo, mas do que eu queria mesmo saber era do meu ordenado ao fim do mês, do meu nariz comprido, do meu umbigo redondo. Se o mundo andava ao meu lado, eu nem me dava conta. Era feliz… Bom, pensando nisso, se calhar não era feliz, mas contente. Estava contente com a vidinha simplória que levava (levo), não precisava de mais nada. Por isso ia dizendo que sim aos teus discursos, dava uma moeda de cinquenta àquela romena que dormia com o filho à entrada do meu prédio e ia vivendo. Era o que eu andava a fazer, a ver a vida passar-me como uma apresentação de slides.
Ameaçavas: “Qualquer dia vou-me embora.”. Eu ria-me, achava piada à tua mania de que eras capaz de mudar o mundo com um bilhete de comboio. Se calhar do que eu gostava mesmo era da forma como os teus olhos brilhavam quando falavas e eu te ouvia, como a cor lodacenta se tornava orvalho quando te entusismavas.

Não perguntavas se eu queria ir contigo porque sabias que eu não queria. Também nunca acreditei que fosses mesmo embora. Que fosses capaz de mudar assim a tua vida, mas é estranho, quando li a tua carta naquele domingo, não me espantei que tivesses ido. Queria ter-me despedido de ti, ter-te levado a jantar naquele restaurante onde eu prometera que iríamos jantar quando te pedisse em casamento. Talvez o fizesse e levavas-me contigo, Paris, Milão, São Petersburgo, fosse onde fosse.
Fiquei durante muito tempo - e estou a falar de um ano e tal - a pensar que voltavas. Nunca saía de casa com medo que me tocasses à porta e não me encontrasses. Li muito porque não te queria desiludir quando cá estivesses, queria estar à altura das tuas conversas.
Perguntava à Sofia, à Ellie o que era feito de ti e elas diziam-me que tinham sido apanhadas desprevenidas tal como eu, mas depois desse ano à tua espera, soube que era mentira, que foste jantar com elas (e não comigo) na véspera de ires embora, elas até tinham ficado com o teu novo endereço. Copenhaga.

Achavas que estava parado no tempo, eu era contra o aborto, contra a legalização das drogas leves, contra a entrada de minorias étnicas do país. Suspiravas “Quadradão.”

Queria muito que voltasses, Lídia. Queria que te dizer que afinal já gosto de Pessoa e de Reis, e que o “O Ano da Morte de Ricardo Reis” já é o meu livro favorito, e que afinal andar de metro e autocarro não é tão mau quanto parece, que o Japonês do Bairro Alto é o meu restaurante preferido, que soja e tofu são pratos deliciosos, que a moca de um charro enrolado é um desprendimento momentâneo da alma, queria dizer-te que o cinzeiro pode, às vezes, estar cheio de cigarros mortos, que afinal as putas são vítimas e não culpadas, que de facto este governo é uma merda e este país se calhar não vale tanto quanto eu achava mas que, no fundo, é o meu país e eu gosto dele assim, com o seu Fado de pequeno país mediterrânico que não abusa do tomate, que os homossexuais são pessoas como as outras mas com um desejo sexual diferente do meu, que a manteiga pode estar cheia de migalhas de torrada.
Sempre disseste que ias embora. Com os teus olhos cor de lagoa presos num vaguear etéreo, sentavas-te longe de mim e afirmavas, com as certezas todas do mundo na tua mala e a esperança dentro do necéssaire, “Um dia vou mesmo”.