Um corpo vazio - quem o habita?
As tuas análises até estão boas, avó.
Costumavas ter a tensão alta, já não tens, o colesterol está nos valores normais, bem como os triglicéridos, tens os leucócitos e eritrócitos no número ideal, glicémia normalíssima, pH neutro (nada de acidoses ou alcaloses). Resumindo, avó, o teu organismo está aí para as curvas, pronto para resistir a entupimentos de artérias e a pneumonias.
Então porquê que eu olho para os teus olhos e não vejo vida, avó? Porquê é que te falo no teu filho (o meu pai) e tu não sabes de quem é que eu estou a falar? Que espírito tomou conta da tua alma e roubou-te a vivacidade, a memória, o raciocínio?
Quem habita esse corpo? Sinto-te longe, dependente de um braço que te ampare e te leve a sopa à boca, suba e desça escadas contigo (o avô continua a querer o vosso quarto lá em cima, onde sempre foram felizes), de duas mãos que te troquem as fraldas, que te sentem na cadeira, na poltrona, na sanita.
Tornaste-te uma criança, avó. Precisas de carinhos, de atenção constante, de companhia, que te avisemos quando não te estás a portar bem. Não gostas de ficar sozinha em lado nenhum nem de achar que não estás a participar em alguma coisa. Mas, ao contrário de uma criança, não aprendes nada do que te ensinamos, já nem te lembras de como se brinca e não és capaz de reter o que te dizemos. Sarcástica a vida, tem humor negro, transforma-nos em crianças quando estamos a caminho do último adeus. Eu espero que o teu último adeus esteja longe, mas não te quero ver sofrer. Se esse ser que agora ocupa o teu cérebro vazio te fizer adormecer e obrigar-te a ficar para sempre deitada, diz-nos adeus, avó, e parte.
Só conheces bem bem o avô, que está sempre ao teu lado, sempre generoso, (quase) sempre paciente. Dos outros lembras-te de vez em quando, sobretudo quando o número de visitas que te fazemos aumenta. É aí que me chamas: "Cristininha" e me pedes para falar contigo e dar-te festinhas no braço, as quais me retribuis com carinho. E sorris.
Como eu gosto de te ver sorrir, avó.
Isso o ser não to roubou, a capacidade de gostares de nós, a tua família. Sorris sempre que nos vês! E, às vezes, ainda repreendes um filho ou um neto que esteja a faltar ao respeito. Como se não soubesses que já estamos grandes e crescidos e como se nós não soubéssemos que agora chegou a nossa vez de cuidar de ti.
Em cada doente de Alzheimer, a doença apropria-se da mente, da vitalidade, da rapidez mental, da memória. Mas não se apropria do carinho e do amor que os familiares do doente sentem por ele. Isso nunca!
Cristina
Costumavas ter a tensão alta, já não tens, o colesterol está nos valores normais, bem como os triglicéridos, tens os leucócitos e eritrócitos no número ideal, glicémia normalíssima, pH neutro (nada de acidoses ou alcaloses). Resumindo, avó, o teu organismo está aí para as curvas, pronto para resistir a entupimentos de artérias e a pneumonias.
Então porquê que eu olho para os teus olhos e não vejo vida, avó? Porquê é que te falo no teu filho (o meu pai) e tu não sabes de quem é que eu estou a falar? Que espírito tomou conta da tua alma e roubou-te a vivacidade, a memória, o raciocínio?
Quem habita esse corpo? Sinto-te longe, dependente de um braço que te ampare e te leve a sopa à boca, suba e desça escadas contigo (o avô continua a querer o vosso quarto lá em cima, onde sempre foram felizes), de duas mãos que te troquem as fraldas, que te sentem na cadeira, na poltrona, na sanita.
Tornaste-te uma criança, avó. Precisas de carinhos, de atenção constante, de companhia, que te avisemos quando não te estás a portar bem. Não gostas de ficar sozinha em lado nenhum nem de achar que não estás a participar em alguma coisa. Mas, ao contrário de uma criança, não aprendes nada do que te ensinamos, já nem te lembras de como se brinca e não és capaz de reter o que te dizemos. Sarcástica a vida, tem humor negro, transforma-nos em crianças quando estamos a caminho do último adeus. Eu espero que o teu último adeus esteja longe, mas não te quero ver sofrer. Se esse ser que agora ocupa o teu cérebro vazio te fizer adormecer e obrigar-te a ficar para sempre deitada, diz-nos adeus, avó, e parte.
Só conheces bem bem o avô, que está sempre ao teu lado, sempre generoso, (quase) sempre paciente. Dos outros lembras-te de vez em quando, sobretudo quando o número de visitas que te fazemos aumenta. É aí que me chamas: "Cristininha" e me pedes para falar contigo e dar-te festinhas no braço, as quais me retribuis com carinho. E sorris.
Como eu gosto de te ver sorrir, avó.
Isso o ser não to roubou, a capacidade de gostares de nós, a tua família. Sorris sempre que nos vês! E, às vezes, ainda repreendes um filho ou um neto que esteja a faltar ao respeito. Como se não soubesses que já estamos grandes e crescidos e como se nós não soubéssemos que agora chegou a nossa vez de cuidar de ti.
Em cada doente de Alzheimer, a doença apropria-se da mente, da vitalidade, da rapidez mental, da memória. Mas não se apropria do carinho e do amor que os familiares do doente sentem por ele. Isso nunca!
Cristina

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