Para a Vitória
"Traga-me mais um", disse, apontando para a chávena de bica que tombava na mesa. Não gosto da cor da borra do café nem do aspecto preguiçoso do açúcar amolecido no fundo da chávena. O que eu gosto é do líquido quente, a fumegar, castanho- urso. E dos pires. Ai, como eu gosto dos pires, brancos quando chegam à mesa e depois, aos poucos, cheios de cinza do meu SG Ventil. Delta, Sical, Nicola, qualquer um entra bem desde que seja rico em cafeína. Nada de coisas pingadas que lhe adulteram o sabor.
Hoje de manhã sinto-me particularmente ensonada. Se calhar devido à visita da Sónia à hora a que me fui deitar. Já não consegui adormecer. Virei-me e revirei-me e nada. Tapei-me e destapei-me e nada. Vesti-me, despi-me e nada. Às seis horas, vencida pelo cansaço, um cavaleiro qualquer num cavalo de uma cor qualquer levou-me num passeio agitado onde eu não descansei. Pior. Acordei ainda mais cansada.
Por isso, e numa tentativa de não receber a visita do cavaleiro durante as aulas (como tantas vezes me acontece), bebo dois cafés nesta esplanada, sinto o frio do Outono na cara e nas mãos ásperas, sinto aromas que só esta estação me traz mas que prazer nenhum me estão a dar este ano e vou a correr para as aulas.
Se calhar devia aspirar este cheiro a folhas amareladas (no Outono a cor tem cheiro), sentir este Sol frio (com cheiro também) com a sua luz muito branca, muito cândida e deixar-me dormir. Adormecer e talvez só acordar daqui a vinte anos, quando todos estivessem velhos e rabugentos. E quando eu acordasse dessa viagem iluminada, não precisaria de mais café, nem de mais nada. Estaria em paz comigo mesma, dentro do meu casulo com janela para o mar. E para aquela árvore, também.
Cristina
Hoje de manhã sinto-me particularmente ensonada. Se calhar devido à visita da Sónia à hora a que me fui deitar. Já não consegui adormecer. Virei-me e revirei-me e nada. Tapei-me e destapei-me e nada. Vesti-me, despi-me e nada. Às seis horas, vencida pelo cansaço, um cavaleiro qualquer num cavalo de uma cor qualquer levou-me num passeio agitado onde eu não descansei. Pior. Acordei ainda mais cansada.
Por isso, e numa tentativa de não receber a visita do cavaleiro durante as aulas (como tantas vezes me acontece), bebo dois cafés nesta esplanada, sinto o frio do Outono na cara e nas mãos ásperas, sinto aromas que só esta estação me traz mas que prazer nenhum me estão a dar este ano e vou a correr para as aulas.
Se calhar devia aspirar este cheiro a folhas amareladas (no Outono a cor tem cheiro), sentir este Sol frio (com cheiro também) com a sua luz muito branca, muito cândida e deixar-me dormir. Adormecer e talvez só acordar daqui a vinte anos, quando todos estivessem velhos e rabugentos. E quando eu acordasse dessa viagem iluminada, não precisaria de mais café, nem de mais nada. Estaria em paz comigo mesma, dentro do meu casulo com janela para o mar. E para aquela árvore, também.
Cristina

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