domingo, outubro 31, 2004

O Grande Problema

Domingo à tarde. Está a dar o Titanic na TVI. Nem olho para a televisão, já vi este filme vezes sem conta, para mim essas vezes chegam. Estou só. Pior. Sinto-me só.

O silêncio é tal que sinto passos no andar de cima. Neste quarto onde estou, consigo ouvir-me, oiço-me contar a mim mesma como foi a minha semana, se gostei ou não do filme do Kusturica que fui ver ontem, se tive sonhos cor-de-rosa ou pesadelos, se foi bom rever os meus colegas de turma ou não, se tenho ou não saudades da minha família.
Inevitavelmente, lembro-me de quarta-feira, dia em que, provavelmente, tomei uma das decisões mais importantes dos últimos tempos. Talvez não tenha sido eu a tomar essa decisão, talvez tenham sido as circunstâncias ou a outra pessoa envolvida. Sei é que, à custa dessa decisão, que o tempo dirá se foi precipitada, pouco pensada, inoportuna ou correcta, hoje estou só e com poucas perspectivas disso mudar.

(O telefone toca. É a outra pessoa, mas não é desta que arranjo qualquer coisa para fazer. Era só uma dúvida de trigonometria.)

O grande problema de estarmos sós é termos que nos aturar a nós mesmos, de termos que enfrentar os nossos defeitos. Porque quando estamos sós as piores coisas baloiçam à nossa frente, deixam-se ser digeridas pelas bocas da auto-avaliação, pelos ácidos da consciência. E os produtos dessa digestão infectam-nos a boa disposição e o optimismo. Quando estamos com alguém, a conversa, a discussão e a presença de uma outra aura, fazem submergir os pensamentos maus, as recriminações, as atitudes negativas e negativistas, que acabam por ficar no fundo do mar, presas por âncoras de risos e conversas profundas ou de nada.
Eu não gosto de conversas de nada. Às vezes prefiro estar só do que estar a fazer uma conversa sem valor, de circunstância, sobre a roupa daquele e o comportamento do outro. Mas hoje não. Hoje queria estar com alguém que não me lembrasse de como eu não sou perfeita, de como eu não acredito em mim, alguém que me mostrasse que sou capaz de estar só sem me auto-flagelar, que sou capaz de me divertir com as coisas que me passam pela cabeça.

Em vez disso, estou para aqui a me corroer com memórias alegres de uma relação que está agora mais triste. E a me aperceber que afinal só eu preciso realmente de mim, por isso o melhor é contar comigo e dar-me ouvidos nestes momentos de solidão.
Cristina

sábado, outubro 23, 2004

Back to school

O despertador toca às sete. Desligo-o, viro-me para um lado, viro-me para o outro. Estico-me para a janela e abro ligeiramente as persianas. Espreguiço-me. Finalmente, abro os olhos (as outras acções são de tal modo mecânicas que as faço com eles fechados). Afasto o edredon, o lençol, levanto-me. Dou alguns passos até à casa de banho, ponho a água a correr para ficar a escaldar (eu sei que faz mal, mas quando está frio, não consigo tomar banho de outra maneira), volto ao quarto enquanto a água aquece (a água que eu desperdiço com esta manobra...), escolho a roupa, os sapatos, pondo tudo sobre a cama. Tomo banho, visto-me, penteio-me, faço um rabo de cavalo no topo da cabeça, perfumo-me. Como cereais ou bebo um copo de leite, lavo os dentes e saio a correr para o metro, porque mesmo me levantando a horas, tenho o condão de me conseguir atrasar sempre. Levo com o vento cortante na cara, o meu nariz e as minhas orelhas gelam (os dedos também se me tiver esquecido das luvas), molho a baínha das calças numa poça de água que tenha resultado da chuvada da noite anterior.
No metro, sou empurrada para uma carruagem com pessoas de todas as raças e feitios, perfumadas e mal-cheirosas. O efeito estufa que se cria é insuportável, mas tenho de aguentar com aquilo até mudar de linha. Mudo de linha. Entro noutra carruagem com pessoas iguais às anteriores e tão diferentes também. Saio na estação de sempre (que cheira a colorau e caril, não sei se devido ao melting pot), subo rampas e escadas, atravesso o parque de estacionamento de um hospital, subo mais uma rampa, chego enfim à faculdade. Estou atrasada e tento entrar na sala sem fazer muito estardalhaço, mas a minha respiração ofegante denuncia-me (estou cansada, acabei de fazer este trajecto a mil á hora!).
"Bom dia"- gemo para o(a) professor(a). Os meus colegas nem olham para mim, fingem estar deveras interessados no que se está a passar no quadro, mas mal o profe vira costas, desatam a fazer-me gestos e a segredar as notícias de última hora.

Segunda-feira, estou de volta...snif...snif...Mas já chega de férias, não é?
Cristina


terça-feira, outubro 19, 2004

CHRISTINA THE ASTONISHING

"Christina the Astonishing
Lived a long time ago
She was stricken with a seizure
At the age of twenty-two
They took her body in a coffin
To a tiny church in Liege
Where she sprang up from the coffin
Just after the Agnus Dei
She soared up to the rafters
Perched on a beam up there
Cried "The stink of human sin
Is more that I can bear"

Christina the Astonishing
Was the most astonishing of all
She prayed balanced on a hurdle
Or curled up into a ball
She fled to remote places
Climbed towers and trees and walls
To escape the stench of human corruption
Into an oven she did crawl

O Christina the Astonishing
Behaved in a terrifying way
She would run wildly through the streets
Jump in the Meusse and swim away

O Christina the Astonishing
Behaved in terrifying manner
Died at the age of seventy-four
In the convent of St Anna"

Nick Cave & the Bad Seeds

Now isn't it lovely? That's just the way I am... (",)
Cristina

sexta-feira, outubro 15, 2004

Um corpo vazio - quem o habita?

As tuas análises até estão boas, avó.
Costumavas ter a tensão alta, já não tens, o colesterol está nos valores normais, bem como os triglicéridos, tens os leucócitos e eritrócitos no número ideal, glicémia normalíssima, pH neutro (nada de acidoses ou alcaloses). Resumindo, avó, o teu organismo está aí para as curvas, pronto para resistir a entupimentos de artérias e a pneumonias.

Então porquê que eu olho para os teus olhos e não vejo vida, avó? Porquê é que te falo no teu filho (o meu pai) e tu não sabes de quem é que eu estou a falar? Que espírito tomou conta da tua alma e roubou-te a vivacidade, a memória, o raciocínio?

Quem habita esse corpo? Sinto-te longe, dependente de um braço que te ampare e te leve a sopa à boca, suba e desça escadas contigo (o avô continua a querer o vosso quarto lá em cima, onde sempre foram felizes), de duas mãos que te troquem as fraldas, que te sentem na cadeira, na poltrona, na sanita.

Tornaste-te uma criança, avó. Precisas de carinhos, de atenção constante, de companhia, que te avisemos quando não te estás a portar bem. Não gostas de ficar sozinha em lado nenhum nem de achar que não estás a participar em alguma coisa. Mas, ao contrário de uma criança, não aprendes nada do que te ensinamos, já nem te lembras de como se brinca e não és capaz de reter o que te dizemos. Sarcástica a vida, tem humor negro, transforma-nos em crianças quando estamos a caminho do último adeus. Eu espero que o teu último adeus esteja longe, mas não te quero ver sofrer. Se esse ser que agora ocupa o teu cérebro vazio te fizer adormecer e obrigar-te a ficar para sempre deitada, diz-nos adeus, avó, e parte.

Só conheces bem bem o avô, que está sempre ao teu lado, sempre generoso, (quase) sempre paciente. Dos outros lembras-te de vez em quando, sobretudo quando o número de visitas que te fazemos aumenta. É aí que me chamas: "Cristininha" e me pedes para falar contigo e dar-te festinhas no braço, as quais me retribuis com carinho. E sorris.

Como eu gosto de te ver sorrir, avó.
Isso o ser não to roubou, a capacidade de gostares de nós, a tua família. Sorris sempre que nos vês! E, às vezes, ainda repreendes um filho ou um neto que esteja a faltar ao respeito. Como se não soubesses que já estamos grandes e crescidos e como se nós não soubéssemos que agora chegou a nossa vez de cuidar de ti.

Em cada doente de Alzheimer, a doença apropria-se da mente, da vitalidade, da rapidez mental, da memória. Mas não se apropria do carinho e do amor que os familiares do doente sentem por ele. Isso nunca!

Cristina

Deste mundo e do outro - ou um post crítico

No mundo real há gente para tudo. Maus escritores com direito a best-seeler, cantores sem voz nem dom musical, actores sem talento dramático, gestores maus a matemática, políticos sem visão nem ideologias, médicos que não gostam de pessoas, jogadores de futebol que recebem mais do que mil funcionários de um supermercado todos juntos só porque sabem dar uns toques numa bola, farmacêuticos com formação insuficiente para receitar medicamentos, lojistas que apenas conseguem expulsar as clientes da loja.

Neste mundo virtual, das outras pessoas conhecemos apenas a sua maneira de escrever. É a sua maneira de escrever que nos faz voltar ou não a um determinado blog, responder ou não a um cumprimento num serviço de chat. E é exactamente disto que eu queria falar: da maneira de escrever.

Ora, sendo ponto assente que ninguém que escreva num blog precise de ter habilidades literárias para se candidatar a um Nobel, é certo que estando a escrever para um público (um blog é um site público e que pode ser visitado por uma imensidão de pessoas) deve ter cuidado formal com o que escreve, começando e acabando pela Gramática. A gramática portuguesa foi criada para ser respeitada mas há por este mundo cada pontapé na dita que a Selecção Internética seria capaz de ter ganho a Grécia na final do Euro. Claro que erros todos damos (eu incluída), mas há certas regras que não devem ser contornadas. É para o bem da Língua Portuguesa que aponto, de seguida, alguns dos erros mais comuns em blogs. Para não afirmarem injustamente que estou a falar de cor, fiquem a saber que consultei a "Gramática do Português Actual" de José Almeida Moura (Lisboa Editores, 2003):

1. Separar o sujeito (e os complementos da frase) do predicado por sinais de pontuação.
Começo com este por ser um erro especialmente comum nos blogs que visito e por ser bastante grave.
Exemplos: O Fernando, foi às compras.(básico, nunca ninguém comete); Deixei-me, de coisas, e fui à minha vida. (já vi, já vi...); Abriu a porta, com a chave. (muito frequente); Ele deve gostar de dinheiro. Imagino, eu! (também frequente).
Nunca se deve separar com vírgulas ou pontos (ou outros sinais de pontuação) os vários intervenientes de uma oração dentro de uma frase.

2. Por falar em orações, não articular orações entre si com conjunções. Dito de outra menira, fazer pontos finais até dizer chega.
Exemplo: Eu gostei de ler o livro tal. É muito bom. Digo mais, é mesmo formidável. As pesonagens, a narrativa, o suspense. Tudo óptimo.
Como a coisa poderia ser escrita: Eu gostei de ler o livro tal, achei-o muito bom ou até mesmo formidável. Na minha opinião, tanto as personagens como a narrativa e o suspense estão óptimos.

Outro exemplo: "Ele disse isto e aquilo. Mas o assunto não morreu assim. Foi dito tal. Porque blá blá blá."

É engraçado constatar que são erros comuns, mesmo em blogs onde se nota que as pessoas gostam de ler e até o fazem com frequência. O facto de se colocarem pontos finais a mais torna a leitura mais aborrecida e não a torna, definitivamente, mais "intelectual".

3. Utilização errónea de pronomes.
Exemplo: "Vou vos dizer", em vez da forma correcta que seria "vou dizer-vos". "Vou me limitar", em vez de "vou limitar-me".

Se alguém se lembrar de mais algum deixe um comentário. E mais cuidadinho com o Português, se faz favor!
Cristina

terça-feira, outubro 12, 2004

Conversa possível na Madeira

"Dás-me boleia para casa? É que eu acho que definitivamente não sei andar de autocarro."

"Vens ter comigo à frente da Sé?"

"Eeeh...Pois...Bem...Eehh...Hmm..É que há um pequeno problema.. Bom, nada de especial...É que...Bem, é que... Eu estou na Ribeira Brava."

"Hmmm."
Cristina
P.S. Esta nunca me aconteceu. Mas a ti, Vitória, conhecendo as tuas histórias com transportes públicos...Era possível, não era? Vá lá não te aventuras por aí além na Madeira! E o metro (em Lisboa, porque o líder do povo superior ainda não se lembrou de furar a ilha com esse propósito- ele é mais carros) até é um transporte seguro nesse sentido:)

segunda-feira, outubro 11, 2004

Para a Vitória

"Traga-me mais um", disse, apontando para a chávena de bica que tombava na mesa. Não gosto da cor da borra do café nem do aspecto preguiçoso do açúcar amolecido no fundo da chávena. O que eu gosto é do líquido quente, a fumegar, castanho- urso. E dos pires. Ai, como eu gosto dos pires, brancos quando chegam à mesa e depois, aos poucos, cheios de cinza do meu SG Ventil. Delta, Sical, Nicola, qualquer um entra bem desde que seja rico em cafeína. Nada de coisas pingadas que lhe adulteram o sabor.

Hoje de manhã sinto-me particularmente ensonada. Se calhar devido à visita da Sónia à hora a que me fui deitar. Já não consegui adormecer. Virei-me e revirei-me e nada. Tapei-me e destapei-me e nada. Vesti-me, despi-me e nada. Às seis horas, vencida pelo cansaço, um cavaleiro qualquer num cavalo de uma cor qualquer levou-me num passeio agitado onde eu não descansei. Pior. Acordei ainda mais cansada.

Por isso, e numa tentativa de não receber a visita do cavaleiro durante as aulas (como tantas vezes me acontece), bebo dois cafés nesta esplanada, sinto o frio do Outono na cara e nas mãos ásperas, sinto aromas que só esta estação me traz mas que prazer nenhum me estão a dar este ano e vou a correr para as aulas.

Se calhar devia aspirar este cheiro a folhas amareladas (no Outono a cor tem cheiro), sentir este Sol frio (com cheiro também) com a sua luz muito branca, muito cândida e deixar-me dormir. Adormecer e talvez só acordar daqui a vinte anos, quando todos estivessem velhos e rabugentos. E quando eu acordasse dessa viagem iluminada, não precisaria de mais café, nem de mais nada. Estaria em paz comigo mesma, dentro do meu casulo com janela para o mar. E para aquela árvore, também.

Cristina

...

ainda nao maria, a SÓNIA É CHATA QUE NEM A PUTAÇA....

Vitória

Insónias

Sónias há muitas... mas insónias só conheço uma, a minha.... que neste momento não me deixa dormir... Mas há de passar especialmente se reduzir no café... e assim talvez fique menos rabugenta, mais simpática e consiga comer.... era fofinho....

Vitória

E a banda que toda a gente ainda fala

(Ou devia falar)

Franz Ferdinand.
Alguém duvida? Eu até acho que já toda a gente se esqueceu quem foi Franz Ferdinand. Qual imperador, qual quê. Por mim, "this fire is out of control, we're going to burn this city".
Cristina

P.S. "So sexy, I'm sexy. So come and dance with me, Michael."

domingo, outubro 10, 2004

Actualmente, a boa pessoa afinal é burra e ingénua

Emprestei os meus resumos das várias disciplinas do 12º ano a várias pessoas desde que estou na faculdade. Chateia-me de morte constatar que supostos amigos meus não têm a decência de os devolver correctamente. Apetece não emprestar nada a ninguém. Já me roubaram resumos de todas as disciplinas que tive.

Sou boa pessoa? Não! Sou burra.
Para mim acabou-se a generosidade.
Cristina

quinta-feira, outubro 07, 2004

sem titulo

"Ao início do dia, uma criança de 13 anos foi morta pelos soldados israelitas no sul da Faixa de Gaza quando se dirigia para a escola. Aparentemente, terá sido o facto de transportar uma mochila às costas que levou o soldado, colocado numa torre de vigia, a desconfiar da criança que foi atingida "por 20 balas", segundo testemunho do director do hospital de Rafah. Outros cinco palestinianos foram mortos em acções militares na área de Jabalya." pág. 17 do Diário de Notícias, 6/10/2004.


quarta-feira, outubro 06, 2004

Algum problema?

Hoje estou incrivelmente sensivel a estupidez dos outros... Estou naqueles dias em que tudo me irrita, e não é o SPM. Estranho...
Tenho dois manés no computador do lado, que me estão a criar um nervoso miudinho...
Outra boa novidade é que estou completamente falida. EEEEHHHHH
Os manés foram embora. OHHHHHH
Sabem que mais... o que me irrita é o medo que temos em sermos verdadeiros com os outros, e quando alguém não tem esse medo somos bem capazes de a criticar.... coisa feia a inveja.
Sim, sim tou a falar de ti também. Algum problema?

Vitória

À conversa com um amigo de vinte anos

Cristina, porque ficamos velhinhos?

- Acho que é porque o nosso prazo de validade acaba antes de morrermos.
Cristina

terça-feira, outubro 05, 2004

canção da revolta

"desfraldemos a bandeira trapo negro bebedeira e brindemos à revolta nossa musa desenvolta" in canção da revolta
maria

sábado, outubro 02, 2004

Template

A maioria dos blogs que visito tem este template ou muito idêntico.
Isso pode querer dizer duas coisas, Maria e Vitória:
1- Ou que os nossos gostos são iguais aos das massas bloguísticas;
2- Ou que o nosso bom gosto é de facto tão bom que optou pelo único template bonito da lista dada pelo Blogger.
Eu vou pela última opção. E vocês?
Cristina

Uma resposta nada inteligente para uma pergunta não menos estúpida

"Como é o teu homem perfeito?"
"Bom... (pensa um pouco)...

...É alguém com muita personalidade."

Comentário: Personalidade é contável? Há quem não tenha? DUH!
Cristina

Pedido de desculpas pelo post anterior

A culpa do post anterior é da Mary J Blige que, antes de uma sua actuação, falou em heartbreak hotels e depois maçou-me com uma canção chorona. Pelo amor de Deus, eu tolero desgostos de amor, mas NÃO SUPORTO a Mary J Blige - penso que terei a compreensão dos outros elementos do Trio Ternura e, até mesmo, dos demais leitores deste blog.

A culpa foi, verdadeiramente, dela.
Cristina

Heartbreak Hotels

Finalidade: cura de desgostos de amor (tal como o nome indica);

Público-alvo: pessoas de coração partido - acrescento eu: com falta de auto-estima, com pouca força para dar a volta por cima, com quase nada para além de uma dependência obsessiva por um objecto amado.

Pode não parecer,mas não gosto de lamechiches sobre amor. Para mim, amor sente-se, não se estuda, o que faria de mim uma anti-teórica do amor. Só estou a escrever sobre ele porque me chateia a canção que puxa à lágrima sobre a traição. Quem trai não merece ser chorado.
Aborreço-me de morte com recordações lamuriosas de "como era bom" - acho que se as minhas amigas soubessem disto, afastavam-se de mim no mesmo momento. Eu oiço-as, minhas queridas, apoio-as, mas sinceramente às vezes não as consigo compreender.
Se era bom, é melhor agora. Acho que é isso que os heartbroken precisam de saber, não da morada de Heartbreak Hotels.

Cristina

Metereologia

As noites nesta cidade continuam quentes, como se o Verão ainda não tivesse ido embora. É pena que, quando acordo, e olho pela janela da sala (a do meu quarto dá para as traseiras e lá derrama-se sombra todo o ano) interponha-se entre mim e o sol um lençol de nuvens muito brancas, brilhantes, mas que roubam o calor de um dia azul, onde em cima só exista Luz.

À noite, sento-me a escrever ou a ler e apetece-me desnudar-me, mas viver num apartamento onde cada um ocupa uma gavetinha tem a desvantagem de que cada gavetinha consegue ver o que se passa na gaveta em frente. Por isso, e como não quero que uma família de respeito qualquer julgue que tem uma depravada a morar mesmo adiante de si, mantenho-me de top e calções.

A humidade atravessa-me cada célula da pele, toma conta dos meus músculos, atravessa-se no caminho do sangue dentro de artérias e veias. Faz de mim gato sapato.

O vento, quando existe, acorda em mim um desejo sensual. Desperta-me os sentidos - audição, visão, tacto, olfacto, gosto. Gosto de sentir, de acordar para as elementaridades do que me rodeia.

É assim que tenho passado os meus dias, numa espécie de êxtase reprimido, numa alegria de estar aqui, agora, assim. Tem sido bom.

Cristina

Organismo

Acho que bebi muito alcoól este Verão. Não demasiado, apenas muito. Sinto-me de tal maneira intoxicada que agora bebo imensa água para eliminar toxinas... E eu nem sei se resulta...

Há alguns dias fui sair e de manhã, quando acordei, dei um pequeno capote. Sabem, uma coisa de nada, que não enchia a barriga a ninguém, mas que estava a perturbar o bom funcionamento do meu organismo. Depois de ter deitado cá para fora a pequena quantidade de bebida não digerida que me atormentava a digestão, senti-me muito melhor e o dia alimentar pôde prosseguir naturalmente.

Cristina