O Grande Problema
O silêncio é tal que sinto passos no andar de cima. Neste quarto onde estou, consigo ouvir-me, oiço-me contar a mim mesma como foi a minha semana, se gostei ou não do filme do Kusturica que fui ver ontem, se tive sonhos cor-de-rosa ou pesadelos, se foi bom rever os meus colegas de turma ou não, se tenho ou não saudades da minha família.
Inevitavelmente, lembro-me de quarta-feira, dia em que, provavelmente, tomei uma das decisões mais importantes dos últimos tempos. Talvez não tenha sido eu a tomar essa decisão, talvez tenham sido as circunstâncias ou a outra pessoa envolvida. Sei é que, à custa dessa decisão, que o tempo dirá se foi precipitada, pouco pensada, inoportuna ou correcta, hoje estou só e com poucas perspectivas disso mudar.
(O telefone toca. É a outra pessoa, mas não é desta que arranjo qualquer coisa para fazer. Era só uma dúvida de trigonometria.)
O grande problema de estarmos sós é termos que nos aturar a nós mesmos, de termos que enfrentar os nossos defeitos. Porque quando estamos sós as piores coisas baloiçam à nossa frente, deixam-se ser digeridas pelas bocas da auto-avaliação, pelos ácidos da consciência. E os produtos dessa digestão infectam-nos a boa disposição e o optimismo. Quando estamos com alguém, a conversa, a discussão e a presença de uma outra aura, fazem submergir os pensamentos maus, as recriminações, as atitudes negativas e negativistas, que acabam por ficar no fundo do mar, presas por âncoras de risos e conversas profundas ou de nada.
Eu não gosto de conversas de nada. Às vezes prefiro estar só do que estar a fazer uma conversa sem valor, de circunstância, sobre a roupa daquele e o comportamento do outro. Mas hoje não. Hoje queria estar com alguém que não me lembrasse de como eu não sou perfeita, de como eu não acredito em mim, alguém que me mostrasse que sou capaz de estar só sem me auto-flagelar, que sou capaz de me divertir com as coisas que me passam pela cabeça.
Em vez disso, estou para aqui a me corroer com memórias alegres de uma relação que está agora mais triste. E a me aperceber que afinal só eu preciso realmente de mim, por isso o melhor é contar comigo e dar-me ouvidos nestes momentos de solidão.
Cristina
