"Senta-te."
Ordenou-me ela, com aquele olhar que só ela sabe fazer, juntando doçura com imperatividade.
Sentei-me.
Encarei-a de frente, limpando a gota de chuva que teimava em percorrer o meu rosto.
"Não mandas em mim", rosnei, consciente de que ela mandava. Ainda.
"Se eu te pedi para vir cá, Gabriela, podes crer que foi por boas razões. Podes crer. Razões fortes, no limiar da desconjuntura total desta família. Segredos que não podem sair desta casa, deste quarto, deste espaço entre nós as duas que aloja o ar que respiramos."
"Ai sim?", demonstrando total desinteresse. Eu já tinha vivido tanto naquela noite que, fosse o que fosse que ela me ia contar, não me faria sequer mexer na cadeira. Por aquela noite já chegava de emoção. "Então conta, porque eu começo a ficar com sono. Não me queres adormecida enquanto contas essa magnífica história. Esse segredo imperioso."
"Herdaste essa ironia do teu pai", observou ela.
Ripostei "Que eu saiba não viemos aqui falar dele. Ao telefone, falaste em ti, então chuta. Começo a perder a paciência."
"Não sejas mal-educada, não foi assim que te criei."
Levantei-me de um salto, com o indicador da mão direita erguido desafiadoramente.
"Tu não me criaste. Tu desapareceste. Eu não sou mal educada -sou impaciente. Tão impaciente que ou me dizes imediatamente porque é que eu estou aqui ou parto esta merda toda e vou-me embora. Por mim chega, mãe."
Ela passou-me uma caixa para as mãos. Paralelepipédica, com embutidos em madre-pérola. Rica em pormenores barrocos, floreados e rococós gravados na madeira. Que madeira seria? Cerejeira? Possivelmente.
Passei os dedos por cada relevo vagarosamente, sentido a suavidade da madeira, a finura do trabalho. Reparei que não estava ali para estudar caixas de madeira - sobretudo aquela, tão assustadoramente familiar.
"Uma caixa? Chamas-me aqui porque estou - porque estamos - em perigo e dás-me uma caixa?"
"Abre-a."
Abri. No seu interior estava uma tampa que escondia o conteúdo da misteriosa caixa.
"Puxa-a."
Puxei. Num forro de seda fúcsia almofadado, jazia o objecto mais estranho que eu jamais vira. A forma era estranha, a cor também o era, a utilidade, o material com que era feito.
"Surpreendida?", oiço-a a perguntar, a sua voz vinda subitamente de longe.
"Não, confusa; mas suponho que me vais saber explicar isto muito bem."
Cristina
Sentei-me.
Encarei-a de frente, limpando a gota de chuva que teimava em percorrer o meu rosto.
"Não mandas em mim", rosnei, consciente de que ela mandava. Ainda.
"Se eu te pedi para vir cá, Gabriela, podes crer que foi por boas razões. Podes crer. Razões fortes, no limiar da desconjuntura total desta família. Segredos que não podem sair desta casa, deste quarto, deste espaço entre nós as duas que aloja o ar que respiramos."
"Ai sim?", demonstrando total desinteresse. Eu já tinha vivido tanto naquela noite que, fosse o que fosse que ela me ia contar, não me faria sequer mexer na cadeira. Por aquela noite já chegava de emoção. "Então conta, porque eu começo a ficar com sono. Não me queres adormecida enquanto contas essa magnífica história. Esse segredo imperioso."
"Herdaste essa ironia do teu pai", observou ela.
Ripostei "Que eu saiba não viemos aqui falar dele. Ao telefone, falaste em ti, então chuta. Começo a perder a paciência."
"Não sejas mal-educada, não foi assim que te criei."
Levantei-me de um salto, com o indicador da mão direita erguido desafiadoramente.
"Tu não me criaste. Tu desapareceste. Eu não sou mal educada -sou impaciente. Tão impaciente que ou me dizes imediatamente porque é que eu estou aqui ou parto esta merda toda e vou-me embora. Por mim chega, mãe."
Ela passou-me uma caixa para as mãos. Paralelepipédica, com embutidos em madre-pérola. Rica em pormenores barrocos, floreados e rococós gravados na madeira. Que madeira seria? Cerejeira? Possivelmente.
Passei os dedos por cada relevo vagarosamente, sentido a suavidade da madeira, a finura do trabalho. Reparei que não estava ali para estudar caixas de madeira - sobretudo aquela, tão assustadoramente familiar.
"Uma caixa? Chamas-me aqui porque estou - porque estamos - em perigo e dás-me uma caixa?"
"Abre-a."
Abri. No seu interior estava uma tampa que escondia o conteúdo da misteriosa caixa.
"Puxa-a."
Puxei. Num forro de seda fúcsia almofadado, jazia o objecto mais estranho que eu jamais vira. A forma era estranha, a cor também o era, a utilidade, o material com que era feito.
"Surpreendida?", oiço-a a perguntar, a sua voz vinda subitamente de longe.
"Não, confusa; mas suponho que me vais saber explicar isto muito bem."
Cristina

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