quinta-feira, setembro 02, 2004

Não digam a ninguém!

Eu nasci de uma gravidez não-planeada. A minha mãe tinha 17 anos, o meu pai 22. Não sei o que aconteceu, nem me interessa saber, mas aqui estou eu. Não tenho mal-formações congénitas, problemas financeiros, intelectuais, legais. Sou sadia, tenho um comportamento normal para uma adolescente/jovem adulta, doenças que me afectem é mais a rinite alérgica. Moro numa casa com 3 quartos, duas salas, 1 cozinha, duas varandas. Tenho uma irmã mais nova do que eu 12 anos e uma cadela Labrador. Já tive um cocker, um coelho-anão, vários canários, vários hamsters. Gosto de animais! E também gosto muito de ler, de música, de dançar. Passei para o 3º ano da faculdade sem nenhuma cadeira atrasada. Os meus pais têm um carro cada um, eu vou ter carro também em breve, um telemóvel cada um. Gosto de falar com os meus pais sobre todos os assuntos que me e lhes dizem respeito, gosto de conversar com eles sobre nada, a minha melhor amiga é a minha mãe, saímos à noite juntos. Já perdi a virginidade e não engravidei. Já repeti e não engravidei.
Eu fui um azar na vida da minha família e deixei de o ser para ser sorte.

E (choque) sou a favor da despenalização do aborto.

Uma vez disseram-me que eu devia ser contra o aborto porque se o aborto fosse legal eu não estaria aqui, seria mais um dos muitos fetos mortos em abortos. Eu não concordo.

Eu concordo que se tomem (como dizia o outro) preocupações - já existem tantos métodos contraceptivos disponíveis, alguns caros, outros baratos, outros ainda gratuitos. Eu concordo que ao se abortar está-se a aniquilar a hipótese de alguém viver, de alguém, como eu, nascer e fazer pela vida. Eu concordo que é preciso mais sensibilização mais civismo quando se fala em sexo e relações sexuais. Eu concordo que o assunto não deve ser tratado com leviandade, mas também concordo que não deve ser tratado com falinhas mansas e hipocrisias.

As causas dos inúmeros abortos são flagelos sociais, que devem ser encarados de frente, pelos cornos, e tratados com seriedade e respeito.

A lei do aborto que vigora em Portugal é- como dizê-lo sem ferir susceptibilidades?- ridícula. Como o são, infelizmente, a maioria das leis portuguesas que tratam de assuntos sérios. É uma lei que ignora casos e consequências, feita a pensar no umbigo de senhores ricos e capitalistas; é uma lei fora de moda, desactualizada, desadequada à realidade portuguesa e europeia.

Ignoram-se os milhares de abortos clandestinos que se fazem em Portugal por ano. Ignoram-se os sentimentos de mães deseperadas que procuram as parteiras ilegais (aborteiras?), o sentimento de desespero, de frustração que as invade. Mães que abortaram porque se sabiam incapazes de cuidar da criança por razões de variada índole, mães para quem o filho representaria uma terrível recordação de uma violação, de uma intromissão no seu corpo, onde já se viu, um filho gerado com ódio, mães para quem ter um filho deficiente seria um desgaste tal, que nem um nem outro seriam capazes de serem felizes- um por se sentir incapaz de fazer mais, outro porque viveria sem viver. São também estas mães que procuram os abortos ilegais, que se arriscam à morte, à doença, à esterilidade e, pior ainda, a serem consideradas criminosas por uma justiça que apenas é justa de nome.

Há casos e casos. Há famílias onde há informação. Onde há condições para se criar uma criança, mesmo que a mãe seja jovem ou a criança anómala ou assim. Há famílias onde deixar que a criança cresça num ambiente pesado e desgastante é um acto mais frio e desumano que matá-la quando ela ainda nem sente a dor da morte (a morte dói?).

E tanto há para dizer sobre este assunto.
Cristina