quarta-feira, setembro 29, 2004

A mãe da Cátia Vanessa e do José Fabiano

Ela acordava de manhã e a mãe já lhe estava a dar um sermão.
"Bolas que dormes até tão tarde! É natural, deitando-se às horas que te deitas...Pfff! Que vida inútil."

Inútil era dizer à mãe que estava de férias e que, por tal, a mãe deveria respeitar o seu sono e deixá-la dormir até mais tarde, sem fazer barulho. Virou-se para o outro lado e, apesar do calor, tapou-se com o edredon para não ouvir o barulho do aspirador.

"Oh Cátia Vanessa, tu nem penses que vais ficar por aí a dormir. Tu levanta-te e é já, que isto são mais que horas de almoço e o teu pai está a assar sardinhas nas traseiras p'a gente."
O aspirador entrou literalmente pelo quarto dela adentro. Literalmente.

Ela levantou-se, olhos ensonados, camisa da noite com um peito à mostra. Endireitou-se.
"Quero ir para a praia. Combinei com uns amigos."

"E eu quero lá saber se queres ir para a praia ou não. Tu vais almoçar com a tua família, que a gente não te põe a vista em cima há uns tempos, desde que chegamos aqui à vila isto é que tem sido um arraial, sair á noite, escaldões e sair à noite outra vez para ter mais um escaldão no dia seguinte."

Ao menos alguém aproveitava o facto de terem alugado uma casa de férias na praia. Com uma família destas bem podiam ter ficado em Lisboa, o pai assava sardinhas na varanda, a mãe aspirava os corredores do apartamento e sentava-se de sofá a ver o "Às duas por três" enquanto fazia inúmeros naperons de crochet.

Vestiu o biquiní. "Oh mãe é que ainda ontem estava lá o Gabriel, o neto da Dona Fernanda, e foi ele quem me convidou."

A Cátia Vanessa sabia que com uma tirada destas não havia sardinha que resistisse. A Dona Fernanda era de tão boas famílias que, com toda a certeza, o seu neto seria um bom partido. Para a mãe, era isso que interessava.

"'Tá bem, tu vai lá, então. Mas vê se não te metes na marmelada que já deste muito que falar às vizinhas este Verão. 'Tou farta de ouvir dizer que andas com este e com aquele, com todos o que aparecem."

A Cátia Vanessa já não estava a ouvir. Já tinha saído porta fora, em direcção ao Gabriel, ao João, ao Gustavo, ao Hélder, ao Vítor, ao Rui e mais alguns. Foi por isso que a mãe pôde resmungar, sem perigo que a filha ouvisse:

"Leviana."

Cristina