Instintivamente, Maria
Ainda bem para todos nós e sobretudo para a tão falada cultura nacional que Carlos Paredes foi para além do seu nome para ser verbo da música, senão nunca teríamos ouvido a magia dos seus dedos a arrancar notas que ninguém arranca, senão nunca saberíamos possível existir uma relação de paixão entre um homem e um instrumento musical, senão nunca teríamos conhecido o verdadeiro som da guitarra portuguesa, a não ser a acompanhar uns faduchos populares em Alfama e no Bairro Alto.
Descobri Carlos Paredes há não muito tempo, infelizmente depois da sua doença se ter manifestado, e devo dizer que me seduziu à primeira. Eu andava a ouvir guitarristas de todo o tipo (Jimi Hendrix, Carlos Santana- trabalhos antigos, claro, John Lee Hooker, bom, um pouco de tudo), quando embati com o jazz. Jazz e tal, e embato com Joel Xavier - um guitarrista português que tem trabalhos óptimos e revelou numa entrevista qualquer que uma das suas influências seria Carlos Paredes. Fui procurar temas dele numa curiosidade natural e logo descobri o que andava a perder. Logo as suas peças saltaram-me ao ouvido. Fiquei encantada.
Infelizmente a sua doença não lhe permitiu fazer ainda mais trabalhos - pessoas como ele eu levaria à exaustão, apenas pedindo-lhes trabalho. Ironia da vida a sua doença afectar-lhe precisamente o seu sistema ósseo (mielopatia), sem o qual não poderia tocar guitarra. Sobre doenças prolongadas não vou falar aqui, porque isso me daria tema para um post, mas a verdade é que esta doença trouxe-lhe não só a morte aos 79 anos como lhe roubou anos de vida (a mielopatia foi-lhe diagnosticada em 1993).
Carlos Paredes foi claramente um exemplo de como podemos ser verbo. E obviamente que agora, na sua morte, é nome, e só por uma razão: porque foi verbo em vida.
Cristina

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