Vieste de longe só para me ver, a lua derramando sobre os móveis da sala, sobre um sofá onde jaziam imóveis livros, onde tu me deitaste e me cumprimentaste com um sorriso de criança e uma dança de adolescente.
Parecemos mais novos quando estamos assim os dois, juntos, abraçados, como sempre deveríamos estar. Mas a manhã seguinte é impiedosa e nós temos filhos que querem ver o pai, que querem brincar com ele, que nos acordam quando estamos com sono logo pela manhã para vermos com eles os desenhos animados. E tu levantas-te e deixas de ser só meu, fazes um pequeno-almoço como só tu sabes, banhados pela claridade da janela,a bandeja sobre a cama. Nunca te esqueces de nada e é por isso que, mesmo estando tão ausente, mesmo me deixando sozinha com três filhos por educar durante meses, nunca amei outro homem. Houve aquela vez do Gouveia, mas logo falámos sobre isso e tudo se resolveu. Não era amor, amor é o que sinto por ti. Pelo Gouveia eram só vontades de mulher como tu tens de certeza vontades de homem nas tuas viagens pelo mundo inteiro.
Espero que não as satisfaças, homem.
Gosto da maneira como me afastas o cabelo da cara, na ombreira da porta de entrada do prédio, onde eu te vou buscar quando chegas, pareço bem por fora mas por dentro estou corroída pela saudade. Gosto da maneira como me dizes que te pareço mais bonita cada vez que voltas. Como suavemente me empurras elevador acima até ao último andar, o único do prédio onde se vê o mar, escolhemos assim para eu te poder suspirar olhando oa zul que te leva para longe.
Gosto que me ligues do navio e digas: "Amanhã chego a casa".
Mas não gosto que mulheres te liguem cá para casa quando cá estás nem gosto que os miúdos te roubem de mim, como fazem sem saber. Porque deixas de ser meu e sinto-te partir estando aqui ao meu lado. Quero atenções, homem, porque estou sozinha e os meus pais nunca quiseram que me casasse contigo, meu marinheiro malandro, acharam que me roubaste o coração porque me tiraste a razão, mas não é isso o amor? E então tenho que ser mãe sozinha sem avós, sem tios, porque todos me viraram as costas e eu só posso esperar por ti.
Tu bem que podias trabalhar com o teu pai no talho.
Cristina